O PAPO POLÍTICO

59 anos sem Che Guevara: os países que marcaram sua vida seguem por outros caminhos

Argentina, Bolívia, Cuba e Brasil, ligados à história do guerrilheiro, vivem hoje crises, ajustes e disputas que pouco lembram a revolução que ele pregava

59 anos sem Che Guevara: os países que marcaram sua vida seguem por outros caminhos
Foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional, 1961
9 de outubro de 2026publicação
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Na segunda-feira, 9 de outubro de 1967, o guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara foi executado numa escola de La Higuera, povoado do departamento de Santa Cruz, na Bolívia. Tinha sido capturado ferido no dia anterior, depois de um combate com o Exército boliviano. Morreu aos 39 anos e virou um dos rostos mais reproduzidos do século 20, estampado em camisetas, muros e bandeiras de quem nunca leu uma linha do que ele escreveu.

Quase seis décadas depois, os países que marcaram a vida de Che seguem por caminhos que pouco lembram a revolução que ele pregava. Em comum, carregam crises econômicas, ajustes duros e eleitores que trocaram de lado.

Argentina, onde ele nasceu

Che nasceu em Rosário, em 14 de junho de 1928, filho de uma família de classe média. Estudou medicina em Buenos Aires e foi numa viagem de motocicleta pela América do Sul, no começo dos anos 1950, que formou a visão política que o levaria às armas.

A Argentina de hoje é governada por Javier Milei, economista liberal que chegou à Casa Rosada prometendo cortar o Estado e acabar com a inflação. A alta de preços desacelerou: o índice de setembro de 2026 ficou em 1,9% no mês, segundo o Indec, o instituto oficial de estatística. O governo, porém, enfrenta queda de popularidade, escândalos de corrupção e a cobrança de quem diz que a estabilidade veio às custas do consumo.

Bolívia, onde ele morreu

Foi na Bolívia que Che tentou, entre 1966 e 1967, abrir um novo foco guerrilheiro no coração da América do Sul. O plano fracassou. Os restos dele ficaram escondidos por quase 30 anos numa vala perto da pista de pouso de Vallegrande e só foram encontrados em 1997, quando seguiram para Cuba.

Em outubro de 2025, os bolivianos encerraram quase duas décadas de governos do MAS, o partido de Evo Morales, e elegeram Rodrigo Paz no segundo turno, com 54,96% dos votos. O novo presidente decretou emergência econômica, acabou com o subsídio aos combustíveis, deixou a moeda flutuar e fechou um programa de US$ 1,9 bilhão com o Fundo Monetário Internacional. O ajuste provocou bloqueios de estradas e protestos que, em maio de 2026, chegaram a pedir a renúncia dele.

Cuba, onde virou mito

Em Cuba, Che lutou ao lado de Fidel Castro na revolução que derrubou Fulgencio Batista em 1959. Foi comandante da fortaleza de La Cabaña, onde tribunais revolucionários condenaram e fuzilaram opositores do novo regime, presidiu o Banco Nacional e foi ministro da Indústria. Em 1965, deixou a ilha para levar a guerrilha ao Congo, numa missão que também não deu certo. Desde 1997, os restos dele estão no memorial de Santa Clara, cidade onde comandou a batalha decisiva da revolução.

A Cuba de 2026 vive uma das piores crises de sua história recente. O país teve três apagões nacionais em seis meses até julho, com regiões passando mais de 15 horas por dia sem luz. A falta de combustível se agravou depois que o governo de Donald Trump, em janeiro, ameaçou com tarifas quem vendesse petróleo à ilha. Dados oficiais apontam que a economia cubana encolheu mais de 15% desde 2020. O presidente Miguel Díaz-Canel atribui a crise às sanções americanas.

Brasil, onde ganhou medalha

O Brasil também tem um capítulo na história de Che. Em agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros o condecorou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria do país para estrangeiros, numa visita que durou menos de um dia. O gesto irritou militares e a oposição conservadora e entrou para a lista de crises que antecederam a renúncia de Jânio, no dia 25 daquele mês.

Neste ano, o país vai às urnas para o segundo turno da eleição presidencial no domingo, 25 de outubro, dividido entre dois projetos. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro - PL teve 56.104.503 votos, 47,03% dos válidos, e Lula - PT ficou com 53.879.538, 45,16%.

O símbolo e a história

A imagem de Che continua dividindo quem olha para ela. Para uns, é o médico que largou tudo para lutar contra a pobreza e a influência dos Estados Unidos na América Latina. Para outros, é o comandante que mandou fuzilar adversários e defendeu a luta armada como único caminho. As duas versões convivem no mesmo pôster.

O que os 59 anos de sua morte mostram é que a região mudou de rumo várias vezes desde 1967. Argentina e Bolívia hoje apostam em governos que defendem o mercado, Cuba luta para manter a luz acesa e o Brasil decide, no dia 25, quem vai governar até 2030. A revolução continental que Che imaginou nunca aconteceu. O debate sobre o que ela significou, esse, segue aberto.