A única mulher que fechou a conta no primeiro turno
Com 53,27% dos votos válidos, Raquel Lyra foi a única candidata mulher eleita governadora sem precisar de segundo turno

Política tem uma matemática cruel com quem governa. Quase toda eleição estadual vira conta de padaria, a de quem junta mais aliança, mais tempo de televisão e mais prefeito, e só depois alguém se lembra de perguntar o que o eleitor acha de tudo isso. Em Pernambuco, a conta fechou do jeito mais simples possível. Raquel Lyra recebeu 2.805.438 votos, 53,27% dos válidos, e encerrou o assunto no primeiro turno.
Faço questão de registrar o tamanho do feito. Entre todos os candidatos a governador do país, ela foi a única mulher eleita sem precisar de segunda rodada. Celina Leão, no Distrito Federal, ficou em 49,93%, a sete centésimos de ponto de decidir. Mailza Assis, no Acre, fez 49,76%, a menos de meio ponto. Ambas voltam às urnas, e no Tocantins a professora Dorinha lidera com 45,52% e também terá o segundo turno pela frente. Há mulheres fortes na disputa por todo lado, mas só Raquel já está com o resultado no bolso.
João Campos, do PSB, fez 2.360.469 votos, 44,82%. Não foi uma eleição apertada. A diferença passou de 444 mil votos, mais de oito pontos. E houve um tempo em que as pesquisas apontavam o contrário. A Quaest registrou a virada ainda em julho, e o eleitor apenas confirmou na urna o que o instituto já tinha farejado.
Gosto de olhar para essa vitória como uma aula sobre o valor da gestão quando ela chega ao cotidiano. A mesma Quaest media, em julho, uma aprovação de 68% ao governo dela. Aprovação alta não ganha eleição sozinha, mas dá ao eleitor um bom motivo para não trocar o que funciona por promessa nova. Num estado com uma tradição política tão pesada, não é pouca coisa.
Há ainda um recado que serve para fora de Pernambuco, inclusive para o Tocantins. Eleitor gosta de quem trabalha e não se constrange de dizer isso na urna, mesmo diante de um adversário com estrutura grande e nome forte. Quem governa com a cabeça no dia seguinte, e não no próximo slogan, costuma ser lembrado. Escrevo isso sem romantismo, sabendo que campanha custa caro e que máquina conta. Mas a máquina não vota.
Fecho com uma provocação. Durante anos ouvimos que mulher na política precisava provar duas vezes. Raquel provou uma só, e a urna respondeu já no primeiro turno. Resta saber quando o resto do país vai parar de se surpreender.