Argentina registra recorde de suicídios em meio a cortes na saúde mental e desemprego juvenil
Relatório aponta redução de 42% no orçamento da área entre 2023 e 2025; especialistas cobram resposta pública e destacam múltiplos fatores para a crise.

A Argentina registrou 5.209 mortes por suicídio em 2025, recorde da série analisada pelo Observatório de Política Criminal, enquanto o ajuste fiscal do governo Javier Milei reduzia os recursos para saúde mental. O relatório citado pelo UOL aponta queda de 42% no orçamento da área entre 2023 e 2025. Para os especialistas ouvidos, dificuldades econômicas, desemprego e falta de perspectivas se somam a outros fatores de sofrimento, sobretudo entre jovens.
O avanço dos casos coloca em discussão a responsabilidade do Estado na oferta de cuidado e na resposta a uma crise que não começou neste governo. A taxa apresentada pelo observatório chegou a 11,8 por 100 mil, acima das referências históricas da crise de 2001 e 2002. Essa comparação, porém, é aproximada: o cálculo de 2025 considera a população de 5 anos ou mais, enquanto a série antiga utiliza outro denominador.
Não há uma explicação única para essas mortes. O documento relaciona depressão, ansiedade, isolamento, consumo de drogas, apostas online e falta de emprego. A coexistência do recorde com cortes de recursos e dificuldades no trabalho descreve o cenário social do problema, mas não permite atribuir cada morte a uma medida econômica ou a um governo.
O governo Milei não havia se manifestado sobre o tema na reportagem do UOL. A Secretaria de Saúde, procurada pelo veículo para entrevistas, não respondeu. Os especialistas entrevistados consideram insuficiente a reação do governo, e o debate chegou ao Congresso Nacional, onde, segundo o advogado Ariel Larroude, parlamentares discutem uma declaração de emergência nacional.
O que mostram os registros
O levantamento do Observatório de Política Criminal utiliza registros oficiais do Sistema Nacional de Informação Criminal, do Ministério da Segurança. Apresentado com a Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos, a APDH, o documento permite acompanhar a dimensão do crescimento recente. Entre 2024 e 2025, o total de mortes por suicídio aumentou 22,6%.
- Em 2024, foram registrados 4.249 suicídios.
- Em 2025, o total chegou a 5.209.
- A taxa de suicídios apresentada para 2025 foi de 11,8 por 100 mil.
- A taxa de homicídios naquele ano ficou em 3,6 por 100 mil.
- As mortes no trânsito tiveram taxa de 8,8 por 100 mil em 2025.
Entre argentinos de 15 a 34 anos, o suicídio passou a ocupar o primeiro lugar entre as causas de morte, à frente dos acidentes de trânsito, conforme os dados citados pelo relatório. Em Entre Ríos, província na fronteira com o Uruguai, a taxa chegou a 17,14 por 100 mil em 2025, acima do indicador nacional apresentado pelo observatório.
O psiquiatra e psicanalista Alberto Álvarez, da Associação de Psicanálise da Argentina, situa na pandemia de covid-19 o período em que o crescimento começou a chamar atenção. Segundo ele, houve um salto em 2023. Sua avaliação associa o agravamento das condições econômicas à perda de esperança de setores da população e identifica depressões que ficaram encobertas desde a pandemia.
Ariel Larroude, diretor do observatório e um dos autores do relatório, também afasta uma leitura de causa única. Advogado penalista e professor, ele já dirigiu a área de Política Criminal do Ministério da Segurança da Nação e coordena uma pós-graduação na Universidade de Buenos Aires. Para ele, os fatores de risco se acumulam e precisam ser considerados em conjunto.
Crises de períodos diferentes
A série da Direção Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde da Argentina, de 1997 a 2011, começou com taxa de 6,3 por 100 mil. Depois da crise de 2001 e 2002, o indicador alcançou 8,7, antes de recuar para 7,3 em 2011. Essa trajetória mostra que o país já atravessou períodos de aumento e posterior redução dos registros.
Um estudo publicado na Revista Argentina de Salud Pública, abrangendo 1990 a 2019, encontrou taxas entre 6,1 e 8,7 por 100 mil, com pico em 2003. O trabalho também apontou queda significativa entre homens e mulheres de 2001 a 2019. A marca recente de 11,8 supera numericamente aquele pico, respeitada a diferença na população usada como base.
O Observatório de Política Criminal informa ainda taxa de 8,4 em 2001 e média de 6,8 durante a última ditadura militar. São referências para dimensionar o registro de 2025, não medidas diretamente equivalentes. A diferença de denominador impede tratar a distância entre os indicadores como uma comparação exata entre os períodos.
Também impede reduzir a história do problema ao mandato atual. Milei assumiu a Presidência em dezembro de 2023, e a crise, segundo a reportagem, já estava instalada nos governos anteriores, ainda sem recorde. A questão apresentada pelos entrevistados é como o poder público responde a uma crise preexistente quando os registros atingem um recorde e os recursos destinados ao cuidado diminuem.
Trabalho e renda dos jovens
Os indicadores do INDEC, instituto oficial de estatística argentino, ajudam a situar as dificuldades econômicas mencionadas pelos especialistas. No quarto trimestre de 2025, o desemprego ficou em 7,5%, alta de 1,1 ponto percentual sobre o mesmo período do ano anterior. Entre homens de 14 a 29 anos, a taxa passou de 12,5% para 16,2%.
A falta de emprego não é a única dimensão dessa insegurança. Segundo o instituto IPYPP, com base na pesquisa de domicílios do INDEC, 70,8% dos jovens trabalhadores estavam em situação precária no fim de 2024. O dado acrescenta ao debate a condição de quem trabalha, mas enfrenta precariedade, além de quem procura uma vaga.
A pobreza oficial, por outro lado, caiu em relação a 2024. O INDEC registrou 31,6% no primeiro semestre de 2025, quase 15 milhões de pessoas, e 28,2% no segundo semestre. Mesmo com a redução, o indicador permanecia acima de 25%. Entre crianças de até 14 anos, a pobreza atingia 41%, mais de 4 em cada 10.
Esses resultados precisam ser lidos juntos: a melhora da pobreza medida oficialmente não elimina o desemprego juvenil nem a precariedade do trabalho. Tampouco os indicadores econômicos, isoladamente, explicam os suicídios. Eles descrevem parte das condições de vida em que os profissionais e as famílias ouvidos pelo UOL identificam sofrimento e falta de perspectivas.
Menos recursos para o cuidado
Segundo o relatório do Observatório de Política Criminal citado pelo UOL, a redução de 42% no orçamento de saúde mental entre 2023 e 2025 ocorreu no período de ajuste fiscal conduzido por Milei. O documento trata o crescimento das mortes como uma questão social e registra que ele acontece paralelamente à diminuição dos recursos para a área.
Segundo a organização ACIJ, o orçamento de 2026 prevê corte de 91,53% no único programa nacional de abordagem comunitária. Trata-se de uma previsão orçamentária apontada pela entidade. O dado amplia a discussão sobre a continuidade do cuidado fora do atendimento individual, cuja insuficiência diante da dimensão do problema é destacada por Álvarez.
Segundo reportagem do El Argentino publicada no sábado, 10 de outubro, o gasto com saúde mental representou 1,27% do gasto total em saúde. A publicação contrapõe essa participação à meta mínima de 10% fixada pela Lei de Saúde Mental argentina. O percentual reportado evidencia a distância entre a destinação de recursos descrita pelo jornal e a meta legal.
O debate sobre o orçamento dá uma dimensão concreta à cobrança de resposta estatal. Os entrevistados não apresentam o atendimento individual como suficiente para enfrentar o problema. A combinação de sofrimento psíquico, isolamento e dificuldades materiais, descrita no relatório, exige discutir também a capacidade das políticas públicas de acolher quem precisa de ajuda.
Famílias cobram acolhimento
A enfermeira Milagros Larraula, de 46 anos, acompanha jovens e famílias em crise desde que seu filho Tadeo morreu por suicídio, aos 16 anos, em 2020. Ao UOL, ela afirmou que os suicídios não começaram com Milei e lembrou que perdeu o filho antes desse governo. Sua crítica se dirige à falta de empatia que percebe na gestão e à deterioração social que observa.
"Minha filha de 15 anos está esperando fazer 16 para tentar uma vaga no McDonald's, quer trabalhar para poder me ajudar", contou Milagros Larraula ao UOL.
No relato da enfermeira, a pressão financeira atravessa a relação entre pais e filhos. Adultos precisam passar mais tempo trabalhando para pagar as contas, enquanto jovens se sentem culpados por suas necessidades. Ela também descreve endividamento com apostas online, isolamento e consumo de substâncias como problemas presentes entre as pessoas que acolhe.
Milagros criou a associação de prevenção ao suicídio tadeo_es, que atende pessoas em crise e atua também no Instagram. Uma lei nacional aprovada em 2021 permitiu à organização entrar em escolas para conversar com adolescentes. Sua experiência sustenta uma cobrança de aproximação com os jovens e de atenção ao sofrimento que nem sempre é percebido pelas famílias.
María Migliore, ex-ministra de Desenvolvimento Humano de Buenos Aires e fundadora do movimento Hacemos Popurrí, também levou o assunto ao debate público. Em uma reunião sobre as estatísticas, 4 de cerca de 50 participantes disseram já ter pensado em tirar a própria vida. Eram jovens, incluindo profissionais de saúde mental. A cantora Lali Espósito abordou o tema em um show no estádio Monumental.
Da discussão no Congresso aos relatos de familiares, a demanda apresentada é por uma resposta compatível com a dimensão social dos registros. Os dados oficiais reunidos pelo observatório dão base a essa cobrança. A ausência de resposta da Secretaria de Saúde aos pedidos do UOL deixa sem esclarecimento, na reportagem, a posição do governo sobre o recorde e sobre as críticas à sua atuação.
Se você ou alguém próximo está em sofrimento, o CVV, Centro de Valorização da Vida, atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188, também por chat e e-mail. Outra opção é procurar o Caps, Centro de Atenção Psicossocial, da sua cidade. Jovens de 13 a 24 anos podem usar o Pode Falar, canal do Unicef, anônimo e gratuito.