Exposição sobre Milton Santos destaca pesquisas realizadas na África
“Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem.”
A frase acima é do geógrafo e professor da USP Milton Santos (1926-2001), intelectual negro, neto de escravizado, que se tornou referência mundial por suas reflexões críticas sobre o fenômeno da globalização. Para comemorar o centenário de seu nascimento, a Mostra Milton Santos, em cartaz no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, reúne objetos, imagens, documentos, mapas e textos que permitem ao público percorrer diferentes dimensões da vida, do pensamento e do legado do geógrafo.
Inaugurada em 23 de setembro, a exposição conta com a curadoria do professor Tiganá Santana, do IEB, e integra as atividades da USP voltadas para celebrar o centenário de Milton Santos, que nasceu no dia 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia. Segundo Tiganá, a mostra busca destacar a atuação do geógrafo como pesquisador na África e apresentar ao público os materiais que ele utilizou em suas investigações, que foram exaustivas. “Só da Costa do Marfim, Milton coletou cerca de dez mapas”, exemplifica o curador.
Milton Santos se formou em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1948, foi preso pela ditadura militar em 1964 e se exilou na França. Depois de lecionar em universidades da Europa e do Canadá, ele voltou ao Brasil e, em 1984, tornou-se professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), onde permanceu até se aposentar, em 1997. Morreu de câncer de próstata em 24 de junho de 2001, aos 75 anos.
Ao chegar à exposição, o visitante se depara com versões preliminares e incompletas da tese de doutorado de Milton Santos, defendida em 1958 na Universidade de Estrasburgo, na França. Os documentos, datilografados, trazem anotações e complementações feitas à caneta pelo próprio autor, evidenciando o caráter manual do processo de escrita da época.
Para Tiganá, “datilografar era algo que acontecia de modo concomitante a escrever à mão. Não foi o mesmo processo da digitação no computador, que substituiu a escrita à mão. Ali, você tinha dois processos coexistindo, até porque você não tinha tantos recursos na máquina de escrever. Então você complementava depois com caneta, lápis ou o que fosse”.
Além da tese – um estudo sobre o centro da cidade de Salvador, na Bahia –, a mesa reúne documentos coletados e utilizados por Santos em sua revisão bibliográfica, como mapas e fotografias da capital baiana.
De acordo com Tiganá Santana, o foco da exposição é apresentar ao visitante aspectos menos conhecidos da trajetória profissional de Milton Santos, já que a parte mais difundida de seu trabalho se concentra em sua passagem pela Europa. “Curadoria é recorte. O Milton Santos na França, na Europa, é o mais conhecido, mas esse Milton Santos na África Subsaariana, sobretudo, é menos conhecido”, explica o professor.
Tiganá destaca a importância da exposição e aponta o que a diferencia de outras iniciativas dedicadas à memória do geógrafo: “A escolha desse recorte se deve, em parte, ao fato de que esse foi um aspecto destacado no Seminário Internacional Milton Santos 100 Anos, realizado em maio passado, no IEB. Não é comum, nos eventos sobre a obra de Milton Santos, abordar sua relação com diferentes partes do continente africano, e isso esteve presente de forma marcante naquele seminário”.
Ainda na seção dedicada à passagem de Santos pela África, o visitante pode conferir registros fotográficos produzidos pelo professor durante suas pesquisas de campo.
Na exposição, o visitante também encontra a reprodução do memorial de Milton Santos – documento acadêmico que reúne informações sobre a carreira do autor. Como se nota, o professor riscou o título datilografado, Memorial, substituindo-o por Vale a pena ser geógrafo?. A obra a que o título se refere reúne textos de Milton Santos, dos quais apenas uma parte foi publicada posteriormente — em alguns casos, sob outros títulos e formatos.
Segundo Tiganá Santana, todos os documentos, fotografias e objetos presentes na mostra pertencem ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), responsável por um acervo de cerca de 60 mil itens. A seleção do material exposto foi realizada por alunos do professor no IEB e contou com a sua supervisão.
A Mostra Milton Santos fica em cartaz até 3 de maio de 2027, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes
Política de uso A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.
“Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem.”
A frase acima é de autoria do geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), intelectual negro, neto de um homem escravizado, que se tornou uma referência mundial por suas reflexões críticas sobre o fenômeno da globalização. Em celebração ao centenário de seu nascimento (1926–2026), a Mostra Milton Santos, em cartaz no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, reúne objetos, imagens, documentos, mapas e textos que permitem ao público percorrer diferentes dimensões da vida, do pensamento e do legado do pensador.
Inaugurada em 23 de setembro após uma cerimônia de abertura, a exposição conta com a curadoria de Tiganá Santana e integra um conjunto de atividades da Universidade relacionadas à celebração do centenário de nascimento do geógrafo.
Ao chegar à Mostra, o visitante se depara com versões preliminares e incompletas da tese de doutorado de Milton Santos, defendida em 1958 pela Université de Strasbourg, na França. O documento, datilografado, também reúne anotações e complementações feitas à caneta pelo próprio autor, evidenciando o caráter manual do processo de escrita da época.
Para Santana, “Datilografar era algo que acontecia de modo concomitante a escrever à mão. Não foi o mesmo processo da digitação do computador, que substituiu a escrita à mão. Ali, você tinha dois processos coexistindo, até porque você não tinha tantos recursos na máquina de escrever, então você complementava depois com caneta, lápis ou o que fosse.”
Além da tese, a mesa reúne documentos coletados e utilizados por Santos em sua revisão bibliográfica, como mapas e fotografias da cidade de Salvador.
De acordo com Santana, o foco da Mostra é apresentar ao visitante aspectos menos conhecidos da trajetória profissional de Milton Santos, já que a parte mais difundida de seu trabalho se concentra em sua passagem pela Europa e sua proposta de subdivisão do Brasil. “Curadoria é recorte. O Milton Santos na França, na Europa, é o Milton Santos mais conhecido, mas esse Milton Santos na África Subsaariana, sobretudo, é o menos [conhecido]”, explica o professor.
O especialista também destaca a importância da exposição e aponta o que a diferencia de outras iniciativas dedicadas à memória de Santos: “A escolha desse recorte se deve, em parte, ao fato de que esse foi um aspecto destacado no seminário internacional realizado em maio. Não era comum, nos eventos [sobre à obra do geógrafo], abordar sua relação com diferentes partes do continente africano, e isso esteve presente de forma marcante nesse seminário.”
Ainda na seção dedicada à atuação de Santos como pesquisador na África, o visitante pode conferir registros fotográficos produzidos pelo pensador durante suas pesquisas de campo.
Na exposição, o visitante também encontra um cartaz cujo título original, “Memorial Milton Santos”, aparece datilografado e riscado pelo próprio geógrafo, que o substituiu por “Vale a pena ser filósofo?”. A obra à qual o título se refere reúne textos de Milton Santos, dos quais apenas uma parte foi publicada posteriormente — em alguns casos, sob outros títulos e formatos.
Segundo Santana, todos os documentos, fotografias e objetos presentes na Mostra pertencem ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), responsável por um acervo de cerca de 60 mil itens. A seleção do material exposto foi realizada por alunos de uma disciplina ministrada pelo professor no IEB e contou com a sua supervisão.
A exposição Mostra Milton Santos fica em cartaz até 3 de maio de 2027, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
Fonte: Jornal da USP (texto de Laura Roson). Leia o original.