Marina Silva diz ao Guardian que Flávio tentaria concluir 'projeto perverso' na Amazônia
Ex-ministra do Meio Ambiente afirma que um governo do senador aceleraria retrocessos ambientais e cita riscos para o Cerrado e para a democracia.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirmou, em entrevista ao jornal britânico The Guardian publicada neste sábado (10), que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), se for eleito presidente, vai tentar concluir o “projeto perverso” de destruição da Amazônia iniciado no governo do pai, Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Flávio enfrenta o presidente Lula (PT) no segundo turno, em 25 de outubro.
“Não tenho dúvida de que, desta vez, eles vão tentar concluir o projeto perverso que começaram com [Jair] Bolsonaro. Se forem eleitos, e que Deus e o povo brasileiro não permitam, vão usar o tempo deles para tentar acelerar ao máximo todos os retrocessos que puderem, inclusive para se manter no poder”, disse Marina, que comandou o ministério até abril deste ano. A entrevista saiu em inglês, e as falas reproduzidas aqui são tradução do texto do jornal.
Para a ex-ministra, a família Bolsonaro enxerga a floresta como obstáculo. “A visão que eles têm da Amazônia é a mesma que têm de tudo. Eles são negacionistas. A visão deles é que a floresta precisa ser removida para dar lugar a atividades econômicas”, afirmou. Segundo ela, um novo governo do grupo voltaria a estimular o garimpo ilegal, a invasão de terras indígenas e a violência contra comunidades indígenas e quilombolas.
Marina comparou o risco de retrocesso ao mito de Sísifo. “Rolar a pedra até o topo e vê-la cair de novo. Só que ela não vai cair em campo aberto, vai cair bem em cima de todos nós”, disse. O Guardian lembra que a área desmatada na Amazônia neste ano é estimada em cerca de 2,6 mil km², contra quase 11,6 mil km² no último ano do governo Jair Bolsonaro.
A preocupação vai além da Amazônia e inclui o Cerrado, bioma predominante no Tocantins. “É um processo devastador. Estou preocupada não só com a Amazônia, mas com todos os nossos biomas, como a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal, o Pampa. Todos os biomas do Brasil estão igualmente ameaçados por essa visão trumpista”, afirmou. Mesmo com uma eventual derrota de Flávio, ela vê risco no novo Congresso, onde o PL ganhou 19 das 54 vagas em disputa no Senado e 121 das 513 cadeiras da Câmara, segundo o jornal. Marina disputou uma vaga no Senado neste ano e não se elegeu.
A ex-ministra também criticou a promessa de Flávio, feita nesta semana, de “redemocratizar” o país. “Essa é uma palavra muito perigosa, porque, para uma mentalidade autoritária, o que significa redemocratização?”, questionou. Segundo o Guardian, Flávio não detalhou o que quis dizer com a expressão. Até a publicação deste texto, não havia resposta pública do senador ou do PL às declarações de Marina.
Marina disse acreditar que Lula ainda pode vencer no segundo turno. “Acredito profundamente que é possível”, afirmou. Ela pretende usar os próximos dias para tentar convencer os mais de 30 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno. A entrevista foi repercutida no Brasil pelo Brasil 247.