Mensagens extraídas pela PF ligam Rueda e ACM Neto à busca de recursos de servidores para o Master
Conversas tratam de aplicações de institutos de previdência e de pagamentos a intermediários. Os dirigentes negam irregularidades, e as mensagens não mostram comissão paga diretamente aos dois.

A Polícia Federal extraiu do celular de Daniel Vorcaro mensagens que mostram articulações atribuídas a Antônio Rueda e ACM Neto para aproximar o Banco Master de institutos responsáveis pela aposentadoria de servidores públicos. Os dois dirigentes do União Brasil negam irregularidades nas relações com a instituição financeira.
Em uma proposta de delação premiada, Vorcaro afirmou que o presidente e o vice-presidente do partido atuariam em troca de 10% dos recursos aplicados por fundos estaduais. A proposta foi rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. As conversas apresentadas não demonstram pagamento de comissão diretamente aos dois políticos.
O Master transferiu R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia de Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto. Ambos atribuem os recebimentos a serviços efetivamente prestados, com documentação fiscal e recolhimento de tributos.
Com base nas mensagens, a PF solicitou buscas em endereços ligados aos dirigentes. A medida não chegou a receber autorização do Supremo Tribunal Federal.
Nas conversas de 2023, Fernando Mascarenhas, diretor comercial do Master, comunicou a Vorcaro contatos com Rueda e a organização de uma viagem para reuniões com potenciais investidores previdenciários. O roteiro mencionado incluía Porto Alegre, Rondônia e Amazonas. Uma lista de passageiros relacionava Mascarenhas, Rueda e intermediários identificados como Ricardo e Raphael.
Aportes e comissões aparecem nas conversas
Rueda negou ter participado da viagem e afirmou que estava em São Paulo. Em outra mensagem daquele período, Mascarenhas atribuiu ao interlocutor chamado de amigo a possibilidade de resolver captações de R$ 1,2 bilhão até o encerramento do ano.
No caso do Amapá, as conversas de 2024 registram uma captação projetada de R$ 400 milhões. Durante a aprovação, o tesoureiro Alberto Felix informou que a operação seria adiada após uma notícia sobre problemas envolvendo títulos do Master na Caixa Asset. Ele também atribuiu a Rueda a decisão de segurar as operações.
Na sequência, Rueda apagou dez mensagens consecutivas e escreveu a Vorcaro: "Apaga essas mensagens". Mais tarde, Mascarenhas comunicou a aprovação de R$ 200 milhões no Amapá. O dirigente do União Brasil nega ter negociado essas aplicações.
Outra relação enviada ao banqueiro reunia captações em andamento de R$ 400 milhões no Amapá, R$ 350 milhões no Rio de Janeiro, R$ 250 milhões no Amazonas, R$ 160 milhões em Campos dos Goytacazes, R$ 500 milhões em Maricá, R$ 100 milhões em Belo Horizonte e R$ 200 milhões em Alagoas. A lista descrevia negociações e não comprova que todos esses valores tenham sido efetivamente transferidos.
As mensagens também tratam de cobrança de R$ 8,9 milhões pela consultoria de Ricardo e Raphael na operação do Amapá. Posteriormente, Vorcaro autorizou uma nota de R$ 8 milhões, e outro registro da tesouraria apontou pagamento de R$ 11 milhões identificado como comissão Amapá. Naquele momento, a Amapá Previdência já havia aplicado R$ 300 milhões no banco.
Investigação alcança aplicações em diferentes estados
A consultoria é atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo e apontado pela PF como lobista no Rioprevidência. As mensagens indicam que sua consultoria praticava comissão de 10%, percentual igual ao atribuído a Rueda e ACM Neto na proposta de delação rejeitada. A coincidência não comprova repasse aos dirigentes.
No Amazonas, Mascarenhas mencionou uma captação de R$ 50 milhões. Outras conversas associaram Rueda a canais de influência em Rondônia e no Rio de Janeiro. Na proposta de colaboração, Vorcaro também lhe atribuiu acesso aos institutos de previdência fluminense, amapaense e amazonense, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro.
Segundo a PF, o Rioprevidência destinou aproximadamente R$ 2 bilhões ao Master. A investigação atribui a indicação de seu ex-presidente, Deivis Marcon Antunes, a uma articulação de Rueda com o governador Cláudio Castro - PL. Antunes foi preso em fevereiro de 2026.
No Amapá, a aprovação de R$ 400 milhões passou por comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, indicado por Davi Alcolumbre - União Brasil e ex-tesoureiro de sua campanha. No Amazonas, a autorização de R$ 50 milhões teve assinatura de um presidente empossado 28 dias antes, que havia sido contador da campanha de reeleição de Wilson Lima - União Brasil.
Os órgãos previdenciários dos três estados foram atingidos por desdobramentos da Operação Compliance Zero, que apura fraudes do Master. Os registros exigem distinguir valores negociados, aprovações e transferências realizadas.
Rueda afirma que relação era profissional
As conversas também registram oferta de jatos por Vorcaro a Rueda, envio de avião para levar familiares do dirigente à Fórmula 1 em Miami e referências a hospedagem em São Paulo. O setor jurídico do Master apresentou ainda a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para quatro ações, por R$ 15,4 milhões.
Mensagens relacionam Rueda à aproximação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília. O banqueiro esteve na residência do dirigente antes de iniciar contato com Costa.
Em resposta, Rueda classificou sua relação com o Master como "eminentemente profissional". Afirmou que os serviços jurídicos tiveram notas fiscais e impostos recolhidos, contestou o uso político de informações sigilosas e disse que adotará medidas para proteger sua honra e imagem.
ACM Neto aparece em registros de encontros com Vorcaro e Rueda. Outras conversas, entre o banqueiro e Fabiano Zettel, fazem referência a pessoas associadas ao dirigente, mas não esclarecem o que teria sido entregue nem indicam valores.
Na proposta de delação rejeitada, Vorcaro atribuiu a ACM Neto recebimentos em espécie provenientes de Antônio Carlos Freixo Júnior. Essa narrativa não equivale a uma comprovação nas mensagens apresentadas.
ACM Neto nega atuação nos fundos
O Master também atribuiu a ACM Neto participação na inclusão do banco em uma lista do Ministério da Previdência de instituições aptas a receber recursos previdenciários. O ex-prefeito de Salvador negou interferência e afirmou que nunca participou do governo federal.
ACM Neto declarou que jamais trabalhou para direcionar aplicações de institutos ao Master, inclusive do Amapá Previdência. Disse ainda que não conhece Fabiano Zettel e rejeitou associações a diálogos dos quais não participou.
Sobre os R$ 5,4 milhões recebidos por sua empresa, afirmou que decorreram de consultoria prestada sob contrato mensal iniciado em janeiro de 2023, com emissão de notas e pagamento de impostos. Também informou estar à disposição das autoridades desde março de 2026.
O dirigente qualificou os vazamentos como "seletivos, manipulados e fora de contexto" e atribuiu ao governo federal uma tentativa de desgaste político. As negativas dos dois dirigentes e a ausência de comprovação de comissões diretas integram os limites do material apresentado.