O Brasil deve descanso a quem se recusa a enxergar
Um tocantinense que saiu do balcão de uma farmácia e uma deputada trans e negra ajudaram a devolver tempo a milhões de brasileiros. A história também se escreve pelas mãos que o poder despreza.

Eu gostaria que cada leitor pensasse no que faria com um dia a mais. Talvez dormisse sem despertador, visitasse a mãe, acompanhasse o filho, cuidasse da própria saúde. Talvez não fizesse coisa alguma. Há uma dignidade imensa nesse direito de não precisar justificar todas as horas da vida.
É disso que estamos falando quando discutimos o fim da escala 6x1. O nome parece uma operação matemática, mas o resultado sempre desemboca numa existência. Seis dias ocupados pelo trabalho, um para tentar acomodar o restante. A vida inteira espremida no intervalo, como se viver fosse uma tarefa secundária.
O Senado aprovou, em dois turnos, a PEC 221 de 2019, por 75 votos a 1. A Câmara havia aprovado o texto em maio. Agora, a proposta segue à promulgação. Considero uma vitória histórica. Mas o tamanho da votação não deve apagar o caminho percorrido até ela.
E nesse caminho há um nome que precisa entrar na conta, e entra com todo o peso. O presidente Lula encampou a causa. Passou a defendê-la no fim do ano passado, colocou o tema como prioridade na mensagem que enviou ao Congresso em fevereiro de 2026 e cobrou o Senado diversas vezes ao longo da campanha. Não se limitou a gostar da ideia de longe. Correu atrás da aprovação, voto a voto, até ver o plenário dizer sim.
Sei que há quem enxergue cálculo eleitoral a onze dias do segundo turno, e há mesmo, como em toda decisão política. Mas a pergunta que me interessa é outra. Quantos governantes, em plena disputa pela reeleição, escolhem uma pauta que desagrada a parte do patronato e a entregam a quem carrega o piano da economia. Quem chamou a proposta de oportunista e só mudou de lado na véspera, votando de longe, está numa fotografia muito diferente da de quem insistiu quando ainda era incômodo. O eleitor costuma saber a diferença entre quem lutou e quem aderiu.
O texto assegura dois dias de descanso remunerado por semana, um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial. A jornada máxima passa de 44 para 40 horas. Dois meses após a promulgação, cai para 42. Um ano depois, chega às 40. A conquista tem calendário, não acontece por encanto.
Segundo o Ministério do Trabalho, cerca de 14,8 milhões de trabalhadores formais estão na escala 6x1. O Ipea aponta que aproximadamente 80% de quem trabalha 44 horas semanais recebe até dois salários mínimos. Não estamos diante de uma discussão sobre pequenos ajustes na agenda dos privilegiados.
Estamos discutindo o tempo de quem recebe pouco e entrega muito. De quem carrega o piano da economia e ainda precisa ouvir explicações sobre a inconveniência de descansar. Eu desconfio de uma ideia de prosperidade que exige do trabalhador uma disponibilidade que seus defensores dificilmente aceitariam para si.
A ironia mais profunda dessa mudança, porém, está em quem ajudou a colocá-la de pé. Um tocantinense que foi balconista de farmácia no Rio de Janeiro. Uma mulher trans e negra que chegou à Câmara dos Deputados. A política encontrou uma resposta justamente onde o poder costuma não procurar.
Rick Azevedo nasceu em Dianópolis e cresceu em Taipas. Antes da tribuna, conheceu o balcão, e passou mais de uma década na escala 6x1. Em 2023, publicou um vídeo sobre o cansaço da jornada e criou uma petição contra a escala 6x1. O desabafo encontrou companhia. A petição passou de milhões de assinaturas. Ele mesmo contou que, no começo, lhe disseram que mudar o sistema era impossível e que o Congresso jamais ouviria um trabalhador.

Vejo nessa passagem uma lição que a política deveria guardar. Rick não precisou inventar uma necessidade para depois procurar quem a sentisse. Partiu da própria experiência e encontrou uma experiência compartilhada. Deu forma pública a um cansaço que, vivido separadamente, parecia condenado a permanecer um problema de cada um.
Líder do movimento Vida Além do Trabalho, ele foi eleito vereador do Rio em 2024. Em 2026, elegeu-se deputado federal, com 191.371 votos, a segunda maior votação do estado. Tomará posse em fevereiro de 2027. Sua participação nessa conquista começou antes de ocupar uma cadeira na Câmara.
Tenho orgulho de que essa trajetória tenha raízes no Tocantins. Dianópolis e Taipas também pertencem a essa história nacional. Não por uma apropriação de ocasião, mas porque a origem de uma pessoa ajuda a contar o caminho que ela percorreu. O balcão da farmácia também pertence a essa biografia.
Os três senadores do Tocantins votaram a favor. Registro esse apoio com respeito. Uma conquista dessa dimensão precisa de mobilização nas ruas e de votos no Congresso. Reconhecer a contribuição institucional não exige apagar quem fez o assunto atravessar a distância entre o sofrimento privado e a decisão pública.
Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, é autora de uma proposta de emenda constitucional pelo fim da escala 6x1. Sua atuação oferece ao país uma dessas ironias que merecem mais que uma comemoração passageira. Merecem exame de consciência. Uma mulher trans ajudou a defender tempo de vida para milhões.
Segundo a Antra, o Brasil segue como o país que mais mata pessoas trans no mundo, posição que mantém há quase duas décadas. A entidade registrou pelo menos 80 assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025 e reconhece a subnotificação. Dessas vítimas, 77 eram travestis ou mulheres trans.
Houve queda em relação aos 122 casos registrados em 2024. As tentativas de assassinato, porém, subiram de 57 para 75. Não consigo olhar esses números e tratar a presença de Erika como simples detalhe biográfico. A identidade não resume sua atuação, mas torna mais contundente o significado histórico dela.
O país que mais mata pessoas trans vai trabalhar menos graças, em boa parte, à atuação de uma delas. Essa frase deveria permanecer conosco depois da promulgação. Há uma dívida moral nessa contradição. Não basta aceitar o direito conquistado e continuar negando respeito a quem ajudou a conquistá-lo.
Não atribuo a duas pessoas uma transformação que exigiu tantas assinaturas, mobilização e votos. Mas também não aceito que o reconhecimento coletivo funcione como borracha. Rick e Erika têm nomes, trajetórias e contribuição própria. A história perde precisão quando transforma quem abriu caminho numa presença dispensável na fotografia.
Olho para o passado sem confundir conquistas diferentes. A Lei Áurea, de 1888, e as mudanças posteriores na legislação trabalhista não são acontecimentos equivalentes. Ainda assim, ajudam a pensar uma pergunta persistente. Quanto da vida de alguém pode ser submetido ao interesse econômico de outra pessoa.
A CLT, de 1943, fixou a jornada em 48 horas semanais. A Constituição de 1988 reduziu esse limite para 44 e garantiu o repouso semanal remunerado, as férias com acréscimo de um terço e a licença-maternidade. O que hoje parece parte da paisagem precisou ser inscrito como direito.
O décimo terceiro salário e as férias também enfrentaram o argumento de que quebrariam o país. Parte dos empresários repete agora essa objeção. A previsão de ruína tem uma disposição admirável para trabalhar sem descanso. Eu preferiria vê-la acompanhada de igual disposição para discutir como organizar a mudança.
Uma transição exige planejamento e atenção às dificuldades de implementação. Isso é diferente de transformar toda dificuldade numa sentença contra o direito. O texto prevê redução gradual da jornada. Cabe cobrar que o descanso e o salário sejam respeitados, para que a conquista alcance a rotina de quem a espera.
Pesquisas mostram que sete em cada dez brasileiros apoiam o fim da escala. O único voto contrário no Senado foi de Hamilton Mourão, do Republicanos do Rio Grande do Sul, ex-vice de Jair Bolsonaro. A maioria expressiva merece registro, assim como a escolha de quem permaneceu contra.
Minha posição é simples. O trabalho precisa caber na vida, e a vida precisa comportar mais que a recuperação para o próximo expediente. Ter tempo para os filhos, para o afeto ou para o silêncio não deveria depender de uma sobra improvável no calendário de quem trabalha.
Quando esse dia adicional chegar, espero que o Brasil saiba reconhecer de onde veio parte do impulso. Do tocantinense que conheceu o cansaço atrás de um balcão. Da mulher trans e negra que levou a reivindicação adiante. Há gente que o país se recusa a enxergar, até descobrir que lhe deve um pedaço da própria vida.