O caixão faz campanha e a infância paga a conta
Entre o enterro simbólico do adversário e a promessa de mais armas, defendo o voto, o livro e a convivência democrática.

Há cenas que entristecem antes de provocar indignação. Sinto esse cansaço diante da política que precisa ensaiar o enterro do adversário para celebrar a própria existência. Quando crianças entram nesse cenário, a degradação ganha outra dimensão. A infância vira figurante de uma hostilidade que os adultos deveriam ter a responsabilidade de interromper, em vez de transmitir como herança.
Nesta semana, no centro de Palmas, participantes de uma manifestação de apoiadores de Flávio Bolsonaro - PL carregaram um caixão com a imagem do presidente Lula na tampa e inscrições contra o governo. Gritavam pelo enterro do presidente, tratado como demônio e satanás. Havia crianças no ato e nos vídeos. Vejo nisso uma encenação que desumaniza o adversário e apresenta seu desaparecimento como motivo de festa.
A União dos Motoristas e Entregadores de Aplicativos do Tocantins repudiou o uso de crianças na manifestação. Seu presidente, Cleiton Borges Pereira, defendeu que elas sejam protegidas de situações capazes de estimular ódio, intolerância e desrespeito às diferenças políticas. Concordo. Parece elementar, mas chegamos ao ponto de precisar explicar que educação política não deveria incluir estágio de coveiro do adversário.
Em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, outro episódio expôs essa infância recrutada. Na comemoração de apoiadores de Flávio Bolsonaro, na noite do primeiro turno, em 4 de outubro, um menino foi filmado sobre o teto de um carro levantando um objeto semelhante a uma arma. A Polícia Civil confirmou a autenticidade do vídeo e investiga. O pai afirma que era um brinquedo.
Brinquedo ou não, a lição ensinada é a mesma. Naquela comemoração política, o gesto associa celebração e intimidação. Não afirmo que a arma fosse real, questiono o exemplo oferecido à criança. O caixão em Palmas e o objeto erguido em Parnamirim compõem, a meu ver, uma pedagogia triste, na qual vencer parece exigir a humilhação ou a ameaça ao outro.
Esse cenário encontra um projeto concreto, pois a equipe de Flávio trabalha num plano para revogar o Estatuto do Desarmamento e tornar posse e porte de armas regra geral, caso ele vença. No governo de Jair Bolsonaro, decretos facilitaram o acesso a armas, Lula os revogou em 2023. Minha crítica recai sobre essa escolha política e essas atitudes, não atribuo a todo eleitor de Flávio a responsabilidade pelas cenas.
Assumo meu lado, o da esquerda democrática e do campo progressista e defendo que esse campo ofereça o caminho do voto, do livro, da Constituição e da convivência, inclusive com quem pensa diferente. Depois da ditadura de 1964 a 1985, a Constituição de 1988 é um compromisso que precisamos sustentar na prática. A democracia exige adversários vivos, livres e respeitados.
No domingo, 25 de outubro de 2026, Lula e Flávio disputarão o segundo turno. Quero que essa decisão pertença ao eleitor, com liberdade e consciência. Primeiro o caixão, depois a promessa da arma, e no meio as crianças. Recuso esse roteiro. Democracia se decide no voto. O caixão e a pistola nada têm a ensinar numa urna.