O PAPO POLÍTICO

O dia em que o Tocantins cansou dos sobrenomes

Um governador aprovado, três ex-governadores, a família que fundou o estado e mais de cem prefeitos no mesmo palanque. O eleitor olhou para tudo isso e escolheu o outro lado

O dia em que o Tocantins cansou dos sobrenomes
Foto: Ascom Vicentinho Júnior
25 de outubro de 2026publicação
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Há eleições que se decidem na contagem e há eleições que se decidem antes, no inventário. Esta foi do segundo tipo. De um lado, o inventário completo. O governador com mais de 60% de aprovação, três ex-governadores, a família que fundou o estado, o prefeito da capital, mais de cem prefeitos e, na reta final, o apoio de Flávio Bolsonaro. Do outro, um deputado que trocou de partido no começo do ano, o presidente da Assembleia e um candidato ao Senado. Foi esse lado que venceu, e por quase 30 pontos.

Confesso que em setembro eu também olhei para a Quaest e achei que a conta estava fechada. 48% a 33% não é vantagem, é lápide. O Tocantins, porém, tem o costume de ler as pesquisas de setembro e depois fazer o contrário, e quem acompanha política por aqui já deveria ter aprendido a não subestimar o eleitor do interior quando ele decide, em silêncio, que chegou a hora de trocar.

Nos bastidores, a história é mais dura do que o placar. Siqueira Campos Jr. renunciou na véspera do primeiro turno para engrossar o caldo de Dorinha. Marcelo Miranda, que governou o Tocantins três vezes, entregou o próprio sobrenome à causa. Trabalhava no gabinete da senadora desde 2025 e lançou a mulher, Dulce Miranda, candidata a deputada estadual pelo partido de Dorinha, com a senadora no palanque. Sandoval Cardoso, que também já sentou na cadeira de governador, foi candidato a deputado federal na chapa dela, defendeu o nome dela, pediu voto para ela e se elegeu. O prefeito Eduardo Siqueira Campos fez da palavra lealdade o refrão das reuniões. Era o Tocantins inteiro de antes de 2026 num só palco. Faltou combinar com quem vota. Em Palmas, a cidade do prefeito, Vicentinho fez 65% dos votos válidos.

Não há nada de errado em ter aliados. Errado é confundir aliado com eleitor. Aliado entrega discurso, foto e, quando muito, um palanque. Não entrega consciência. O tocantinense já viu Siqueira, Marcelo, Sandoval e Carlesse passarem pelo Palácio Araguaia e aprendeu a desconfiar de palanque lotado. Quanto mais gente em cima do palco, menos gente embaixo dele.

Não escrevo isso para diminuir a senadora Dorinha. Ela fez 386 mil votos no primeiro turno e tem uma trajetória que ninguém apaga. Escrevo para registrar que o problema nunca foi a candidata, foi o pacote. Quando se coloca todo o passado de um estado no mesmo lado da urna, o outro lado passa a se chamar futuro, mesmo que ainda não tenha feito nada para merecer o nome.

Vicentinho, Amélio Cayres e Alexandre Guimarães não ganharam sozinhos no segundo turno. Laurez Moreira entrou, Eli Borges entrou com os 271 mil votos que fez para o Senado, 14 apoios chegaram em cinco dias. Mas no primeiro turno, quando ninguém dava nada, os três estavam sós e ficaram a 13.412 votos da liderança. Foi ali que a eleição se decidiu. O resto foi aritmética.

Alagoas me ajuda a entender. Renan Calheiros perdeu o Senado depois de 32 anos, e o filho perdeu o governo para um tucano, com o MDB dono de 65 prefeituras. Os cientistas políticos chamam isso de desgaste. Eu chamo de cansaço. O eleitor cansou de sobrenome.

Vicentinho recebe agora um estado que o descartou nas pesquisas de setembro e o escolheu na urna. Vai governar com a Assembleia, com os prefeitos que mudam de lado na segunda-feira seguinte e com a mesma máquina que trabalhou contra ele. Terá de provar que vencer o passado é mais fácil do que construir um presente. A urna lhe deu mais de 64% dos votos válidos. Deu também a obrigação de não virar, em quatro anos, mais um sobrenome.