Fato ou Fake

Rede no X distorceu fala sobre saúde para espalhar falsa acusação contra Lula

Reportagem do Aos Fatos de 30 de setembro reconstruiu a circulação da desinformação em 1.819 publicações. Manipulação do Grok e divulgação por perfis políticos ampliaram a narrativa.

Rede no X distorceu fala sobre saúde para espalhar falsa acusação contra Lula
Foto: Foto: Ricardo Stuckert/PR, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
19 de outubro de 2026publicação
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O Aos Fatos reconstruiu a transformação de uma fala de Lula - PT sobre prevenção ao câncer de próstata em uma falsa acusação de pedofilia. Publicada na quarta-feira, 30 de setembro de 2026, a reportagem verificou um monitoramento de 1.819 posts no X divulgados entre segunda-feira, 28 de setembro, e terça-feira, 29 de setembro.

No discurso em Belém, o presidente criticava a resistência masculina aos exames de próstata e comparava esse comportamento aos cuidados ginecológicos das mulheres desde a infância. O recorte passou a circular com uma interpretação que retirava a declaração do contexto de saúde.

Antes disso, perfis ligados à chamada “bolha da resenha” já tentavam induzir o Grok, assistente de inteligência artificial do X, a produzir uma associação entre Lula e material de abuso sexual infantil. O grupo reúne contas, muitas delas anônimas, que misturam humor agressivo e conteúdo político extremista.

A manipulação começou com instruções para reduzir “cerveja e picanha” às iniciais. A resposta foi usada para fabricar a frase “Lula consome CP”, explorando a sigla em inglês para pornografia infantil. Posteriormente, o próprio chatbot explicou que se tratava de um jogo de palavras e que não havia registro capaz de sustentar a afirmação.

O vídeo do discurso deu novo alcance à acusação. Às 23h59 de segunda-feira, 28 de setembro, a influenciadora Pâm publicou um recorte. O perfil Space Liberdade divulgou outro à 0h28 de terça-feira, 29 de setembro. No minuto seguinte, o monitoramento já registrava acusações explícitas contra o presidente.

As publicações incluíram pedidos para baixar e republicar o vídeo, criar hashtags e mobilizar influenciadores. O levantamento identificou 746 posts com acusações diretas ou incentivo à sua propagação. A narrativa passou, assim, dos experimentos com o chatbot à distribuição de trechos do discurso acompanhados da falsa associação.

Às 9h49 de terça-feira, 29 de setembro, Nikolas Ferreira - PL divulgou um dos recortes. Às 10h23, publicou um vídeo com a declaração: “Menina pequena não aprende a tomar toque nenhum, Lula!!!”. O levantamento não aponta participação do deputado nos experimentos com o Grok nem na criação da acusação. Ele aparece entre os primeiros políticos de grande alcance a ampliá-la.

Na quarta-feira, 30 de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que Nikolas retirasse uma publicação em até 24 horas. A ministra Estela Aranha apontou que o conteúdo atribuiu à fala uma “conotação inteiramente diversa”, deslocando uma discussão sobre saúde para uma associação com crimes contra crianças e adolescentes.

A circulação também recuperou histórias sem relação com o discurso. Não há evidência que ligue Lula aos crimes sexuais registrados no Marajó. Sobre Jeffrey Epstein, o email que menciona um suposto telefonema não comprova a conversa: Valeria Chomsky negou a intermediação atribuída ao marido, e a Presidência negou a ligação.

Outra alegação retomada foi a do “menino do MEP”, referência ao Movimento de Emancipação do Proletariado. A história de uma suposta tentativa de violência sexual na prisão nunca foi comprovada. João Batista dos Santos, identificado como o militante citado, não confirmou a acusação e cobrou provas de seu autor.

As informações são de reportagem do Aos Fatos, publicada em 30 de setembro de 2026. Leia a íntegra no Aos Fatos.