“Revista do IEB” lembra os 70 anos de duas obras-primas da literatura
O escritor em sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967 – Foto: Arquivo Nacional
Em 1952, João Guimarães Rosa viveu a Travessia da Boiada: uma viagem de dez dias pelos caminhos do sertão mineiro ao lado de Manuelzão e de outros sete vaqueiros, que viria a impactar todo o rumo posterior da literatura brasileira. O escritor registrou detalhadamente sua expedição em cadernetas – hoje preservadas nos arquivos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – e, ao retornar, teve inspiração para criar duas de suas obras-primas: o romance Grande Sertão: Veredas e o livro de novelas Corpo de Baile, lançados em 1956. Para comemorar os 70 anos dessas duas publicações, a nova edição da Revista do IEB traz o dossiê Guimarães Rosa – 70 Anos de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. A revista, de número 94, está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
O dossiê reúne nove ensaios escritos por especialistas ligados a diferentes instituições de ensino e pesquisa, além da apresentação. Um desses ensaios é Infância, Som Fantasma (Corpo de Baile), da professora Clara Rowland, da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. Nele, Rowland analisa a estrutura de novelas presentes em Corpo de Baile e sua relação com o livro de contos Primeiras Estórias (1962), destacando as repetições que conectam as duas obras. A partir de Campo Geral e Buriti, ela argumenta que a infância permanece como presença fantasmática na narrativa e na linguagem. A análise mostra como a trajetória de Miguilim, protagonista de Campo Geral, se organiza através de “ecos, inversões e regressos, destacando a sonoridade – cantos de pássaros, ruídos noturnos, ecos e silêncios – como elemento que conecta presença e ausência, infância e pós-infância”, como escreve a autora. Ela aponta essa poética da escuta em Buriti, outra novela presente em Corpo de Baile, na qual os sons da noite são um espaço de registro das memórias e dos fantasmas de Miguel.
Em outro texto do dossiê, De Miguilim a Miguel: da Alegria Ao amor, o professor Michel Riaudel, da Universidade Sorbonne, na França, trabalha a ideia roseana de travessia, um elemento muito forte nas histórias do escritor mineiro. Em Buriti essa ideia aparece nas descrições da paisagem através do olhar de Miguel, com intervenções que ele divide com o estilo abstrato do narrador. Riaudel cita como exemplo a passagem “A vida não tem passado. Toda hora o barro se refaz. Deus ensina”, analisando que, ao fim da viagem, a instância narrativa e a instância da personagem agora caminham na mesma direção e Miguel se tornou plenamente “filósofo”, apto a aprender a vida. “Uma lição com acentos tão barrocos, para que não nos esqueçamos de que a vida também é um sonho”, diz o autor.
Ainda no dossiê, a professora da USP Maria Cecilia Marks, no ensaio Uma Canção do Exílio em ‘Cara-de-Bronze’, coloca em paralelo a novela Cara-de-Bronze, também publicada em Corpo de Baile, que conta a história da viagem que o vaqueiro Grivo faz em nome de seu patrão, e a Canção do Exílio, clássico de Gonçalves Dias. No ensaio, Marks analisa Cara-de-Bronze destacando sua ousadia estilística, marcada pela mistura de gêneros, referências, intertextos e recursos paratextuais. Essa é uma das poucas histórias de Rosa em que o enredo se passa fora do cenário do sertão mineiro. Parte do trabalho de Marks trata de identificar o percurso de Grivo através de menções de toponímia, interpretando-o como uma “rapsódia ao Cerrado”. Outros dos temas que ela discute são o enigma dos motivos da viagem, quem foi Inácia Vaz (nome alvo de especulações dos personagens), o conceito da “querência” e a presença das cores na narrativa e como elas interferem na poética do texto.
O professor Leando Bessa, da Universidade Católica de Brasília, assina o ensaio João Guimarães Rosa e Simone de Beauvoir: Imanência e Transcendência no Sertão Rosiano, no qual é feita uma análise comparada entre o texto L’Initiation Sexuelle de la Femme, da escritora francesa Simone de Beauvoir, e Grande Sertão: Veredas. Bessa aproxima as proposições filosóficas e de gênero de Beauvoir e a elaboração da personagem Diadorim, mostrando como a escrita da autora francesa reverbera na leitura do texto rosiano. Por meio da análise de documentos e da leitura do romance, são encontradas pistas do interesse de João Guimarães Rosa pelo debate levantado por Beauvoir em O Segundo Sexo, a partir da necessidade de mudança de posicionamento que a escritora incutiu no patriarcado, de rever a história das mulheres sob outro ângulo.
Outros textos publicados no dossiê da nova edição da Revista do IEB são Um Possível Diálogo Libertador entre Grande Sertão: Veredas e Pedagogia do Oprimido, do professor Henrique Leroy, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), O “Recado” das Casas-Grandes em Grande Sertão: Veredas, de Márcio Lucena, doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Riobaldo, Veredas e Cavalos: Poesia Meeira e Escrita Mediúnica no Grande Ser-Tão, do professor Marcelo Marinho, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). O dossiê traz ainda os ensaios O Encruzado Trabalho da Travessia: Alison Entrekin e a Retradução de Grande Sertão: Veredas para o Inglês, de Guilherme Mazzafera, doutor em Literatura Brasileira pela USP, e Jaguaretama, Jagunçama: a Forma Dialógica em Guimarães Rosa, do Iauaretê ao Grande Sertão – e Vice-Versa, da professora Marise Soares Hansen, da USP.
Além do dossiê, a nova edição da Revista do IEB traz a seção Artigos, formada por quatro textos relacionados a pesquisas feitas nas áreas de literatura, música e sociologia. Há também a seção Criação, com um único artigo, que reúne depoimentos de membros da Oficina de Leitura Guimarães Rosa, localizada no IEB — grupo que promove a leitura em voz alta da obra de Guimarães Rosa, seguida de debate e interpretação coletiva. Intitulado A Parábase como Prática da Oficina de Leitura Guimarães Rosa, o artigo é assinado pelas professoras da USP Maria Neli Defensor Martins, Regina Pereira e Renata Ribeiro. A revista apresenta ainda a seção Documentação, que conta com os textos A Rubra Matéria: Uma Fraseologia do Texto Rosiano, de Elizabeth Hazin, e Sorôco e a Vida Civil do Sertão, de Luiz Roncari, ambos também abrangendo o universo literário rosiano. Uma última seção, Resenhas, contém resenhas dos livros As Boas Maneiras do Morar, da socióloga Carolina Pulici, escrito pela professora Silvana Rubino, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e A Trinca do Curvelo, de Elvia Bezerra, sobre o poeta Manuel Bandeira, assinado por Sávio Alencar, doutorando em Literatura Brasileira pela USP.
A nova edição da Revista do IEB está disponível gratuitamente, na íntegra, no Portal de Revistas da USP.
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes
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Fonte: Jornal da USP (texto de Nina Nassar). Leia o original.