Ritos e regras das sociedades de corte são analisados na nova edição da “Revista USP”
“O rei está nu!” A famosa frase do conto A Roupa Nova do Rei, do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), remete à história de um monarca vaidoso enganado por dois vigaristas, que prometem confeccionar um traje visível apenas para pessoas inteligentes e esclarecidas. Com receio de serem considerados incapazes ou estúpidos, funcionários, ministros e o próprio rei fingem admirar a suposta vestimenta. A farsa só é desmascarada quando, durante um desfile, uma criança fala a célebre frase e todos percebem que foram enganados. Embora se trate de uma narrativa ficcional, a atitude dos membros da corte, que fingem enxergar a roupa inexistente do monarca, ilustra os ritos sociais e as regras de etiqueta característicos das chamadas “sociedades de corte”, tema explorado no dossiê da nova edição da Revista USP, publicação trimestral da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
A nova edição, de número 150, é organizada pelos professores Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Gustavo Luiz Nunes Borghi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), também da USP. O conjunto de textos do dossiê – intitulado Sociedades de Corte – Práticas Sociais e Regras de Etiqueta entre os Séculos XVI e XIX –, como destacam Chauvin e Borghi na apresentação do periódico, é uma homenagem a João Adolfo Hansen, Professor Emérito da FFLCH, que morreu no início deste ano. “Que este dossiê, idealizado e concretizado em sua homenagem, seja também um respeitoso registro em sua memória”, escrevem os professores.
João Adolfo Hansen (à esquerda), Jean Pierre Chauvin (no centro) e Gustavo Luiz Nunes Borghi (à direita) — Foto: Reprodução/Revista USP
O dossiê se inicia com o ensaio “O discreto”, de Hansen, que aborda os conceitos de discrição e vulgaridade na vida cortesã. Nele, o professor defende que essas duas formas de comportamento frequentemente se mesclavam. Assim, um nobre que se entregava ao hedonismo durante a noite podia ser o mesmo que se apresentava de maneira discreta e elegante nas reuniões da corte. Hansen destaca ainda que a simulação e a dissimulação eram qualidades valorizadas entre seus membros, uma vez que a boa reputação dependia da opinião alheia. “Discreto é o que sabe produzir a representação adequada de ‘honra’, evitando com ela a murmuração vulgar, pois com a representação adequada se mantém intacta a reputação da posição que aparece formalizada nos signos.”
Já em “Discretas loucuras quixotescas: paradoxos e sociedades de corte”, a professora Maria Augusta da Costa Vieira, da FFLCH, estabelece uma espécie de diálogo com o conceito de discrição apresentado por Hansen. Segundo a autora, a discrição era uma conduta almejada na vida cortesã, capaz de tornar mais eficaz a atuação dos nobres na busca por seus objetivos. Vieira recorre então à história de Dom Quixote, fidalgo espanhol que, após ler inúmeros romances de cavalaria, passa a acreditar ser um cavaleiro andante e sai em busca de aventuras ao lado de seu escudeiro, Sancho Pança. Em sua análise da obra de Miguel de Cervantes (1547-1616), a professora argumenta que o protagonista se constitui como um personagem complexo, combinando características aparentemente contraditórias e sendo, ao mesmo tempo, louco e discreto.
Ainda no dossiê, encontra-se o ensaio “José Anastácio da Cunha, um libertino no centro e à margem da sociedade de corte portuguesa da segunda metade do século XVIII”, de Luiz Carlos Villalta, professor da FFLCH e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No texto, o autor analisa a trajetória do matemático, poeta e intelectual português José Anastácio da Cunha (1744–1787), buscando compreender como suas ideias ilustradas e posições religiosas o colocaram, simultaneamente, dentro e fora dos círculos de poder da corte portuguesa. Classificado por Villalta como representante da “libertinagem ilustrada”, Cunha mantinha relações com membros influentes da elite e ocupava cargos prestigiados, mas suas convicções religiosas heterodoxas e o contato com ideias consideradas perigosas pela Igreja e pelo Estado acabaram levando-o a ser denunciado e processado pela Inquisição. Em suas considerações finais, o professor advoga: “Homem cosmopolita, um Belisário lusitano, José Anastácio teve a vida, a inteligência, a graça e a sensibilidade ceifadas pela sociedade de corte, em que se difundiam Luzes, mas não suficientemente brilhantes para ‘chotar’ o despotismo, o fanatismo e as mesquinharias que dele se nutriam”.
José Anastácio da Cunha, intelectual português perseguido pela Inquisição – Foto: Reprodução
Também integram o dossiê os textos “Lisboa ubilicus mundi: sonhar em ser a capital do mundo durante a União das Coroas (1580-1640)”, de Ana Paula Torres Megiani, e “A biblioteca musical de Johann Adam Hiller (1728-1804)”, de Mônica Lucas e Marcus Held.
Lasar Segall, Navio de Emigrantes, 1939-1941, óleo com areia sobre tela – Museu Lasar Segall – Iphan/MinC (São Paulo) – Foto: Vera Albuquerque e Luiz Hossaka/Reprodução/Revista USP
Além do dossiê, a nova edição da Revista USP traz outras três seções, intituladas Textos, Arte e Livros.
Na seção Textos, encontra-se “Entre livros e planos-sequência: Andrei Tarkóvski, leitor”, no qual Julio Augusto Xavier Galharte, pós-doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisa como as leituras de Andrei Tarkóvski influenciaram sua filmografia. O autor investiga de que maneira escritores como Tchékhov, Púchkin, Dostoiévski, Tolstói, Cervantes, Dante e Shakespeare aparecem nos filmes do diretor russo. Como exemplo, Galharte examina os diálogos estabelecidos por O Espelho (1974) com a literatura russa, especialmente com as obras de Anton Tchékhov e Aleksandr Púchkin.
Na mesma seção, Renato Rodrigues da Silva, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Bruno Melo Monteiro, doutor em Filologia Românica pela Freie Universität Berlin, reavaliam a importância de Ferreira Gullar (1930-2016) como crítico de poesia e protagonista dos debates sobre as vanguardas brasileiras dos anos 1950, especialmente na disputa entre o Concretismo paulista e o Neoconcretismo carioca. Para isso, no ensaio “A contribuição de Ferreira Gullar para a crítica poética no Jornal do Brasil (1955–1961)” , eles analisam 38 textos publicados pelo poeta no Jornal do Brasil entre 1955 e 1961.
Hieronymus Janssens/Domínio público/Wikimedia Commons – Foto: Reprodução/Revista USP
A seção traz ainda o artigo “Depois do Sofitel”, de Daniel Afonso da Silva, doutor em História pela FFLCH, que discute as transformações políticas e sociais ocorridas no mundo após a crise financeira de 2008.
Na seção Arte, o artigo “Lasar Segall — Arte em movimento”, da professora da ECA Elza Ajzenberg, aborda a trajetória artística de Lasar Segall (1889-1957) e a atualidade de sua obra. A autora demonstra que sua ascendência de judeu russo e seu contato com os movimentos artísticos de vanguarda — como o Expressionismo e o Pós-Cubismo — influenciaram fortemente suas produções. “Segall é o artista da reflexão, organizando suas personagens em formas geométricas animadas. Há sempre uma atenção especial para os olhos, procurando o outro e o humano na arte”, destaca Ajzenberg.
Já a seção Livros traz uma resenha escrita pela jornalista Leila Kiyomura de Lacerba e o Futurismo Florentino, de Annateresa Fabris, professora titular aposentada da ECA e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).
Revista USP, número 150, dossiê Sociedades de Corte – Práticas Sociais e Regras de Etiqueta entre os Séculos XVI e XIX, Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, 173 páginas.
A revista está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob orientação de Simone Gomes
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Fonte: Jornal da USP (texto de Laura Roson). Leia o original.