Igreja Católica

Uruguai prepara acolhida a Leão XIV e amplia debate sobre religião e sociedade

Análise do Vatican News reúne avaliações do sociólogo Néstor da Costa sobre secularização, juventude e cooperação social antes da terceira visita de um pontífice ao país

Uruguai prepara acolhida a Leão XIV e amplia debate sobre religião e sociedade
Foto: Edgar Beltrán/The Pillar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
4 de novembro de 2026publicação
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O Uruguai prepara a acolhida ao papa Leão XIV, com encontro previsto na Universidade Católica do Uruguai em 7 de novembro. A viagem será a terceira visita de um pontífice ao país e recoloca questões religiosas no debate público. Em análise publicada pelo Vatican News, o especialista em Sociologia da Religião Néstor da Costa, professor da universidade, aponta oportunidades de aproximação entre a Igreja e diferentes setores sociais.

“A chegada do Papa é uma oportunidade para renovar o diálogo entre a Igreja e a sociedade, especialmente com os jovens”, afirmou Da Costa aos veículos de comunicação do Vaticano. Assinado por Sebastián Sansón Ferrari e produzido na Cidade do Vaticano, o texto examina a religiosidade uruguaia e as expectativas em torno de Leão XIV. São João Paulo II esteve no país em 1987 e 1988.

Situado às margens do Rio da Prata, o Uruguai figura entre os países mais secularizados da região. Sua trajetória histórica inclui a separação institucional entre Estado e Igreja, mas isso não elimina a presença da fé na vida cotidiana. Enquanto o cristianismo mantém presença social e cultural expressiva na América Latina, muitos uruguaios acreditam em Deus sem frequentar comunidades religiosas, e parte dos fiéis não declara identificação com uma Igreja.

Para Da Costa, a visita oferece uma oportunidade de compreender essas formas de viver a fé. “Desde o primeiro anúncio da possibilidade da visita, a expectativa foi crescendo progressivamente, sobretudo no mundo católico, mas também em outros setores da população”, relatou. Segundo o professor, a confirmação da viagem provocou mobilização e alegria que ultrapassaram os círculos católicos, demonstrando interesse pela presença do pontífice em outros segmentos da sociedade.

Secularização, fé cotidiana e diálogo social

O sociólogo situa as origens da particularidade uruguaia nos séculos XIX e XX. A imigração europeia influenciou a formação demográfica e social do país, enquanto um projeto político e cultural recebeu influências racionalistas e francesas. Esse projeto buscava modernizar as instituições e reduzir a centralidade pública da religião. Entre as mudanças estiveram a transferência da administração dos cemitérios da Igreja para o Estado e a obrigatoriedade do casamento civil antes da cerimônia religiosa.

A Constituição estabeleceu a separação entre Igreja e Estado em 1918. Celebrações e períodos litúrgicos também receberam denominações oficiais laicas: 25 de dezembro passou a ser o Dia da Família, 6 de janeiro recebeu o nome de Dia das Crianças e a Semana Santa tornou-se Semana do Turismo. Diversas localidades substituíram nomes religiosos por denominações laicas, em um processo que marcou a relação entre religião, instituições e espaço público.

Essa história, porém, não abrange toda a complexidade das experiências religiosas uruguaias, frequentemente vividas fora das instituições. Da Costa analisa a integração cotidiana entre crenças, espiritualidade e transcendência a partir do que chama de “religião vivida”. Nessa perspectiva, os indicadores de pertencimento a uma comunidade ou Igreja não são suficientes para descrever a maneira como as pessoas se relacionam com a fé.

“A piedade popular”, afirmou Da Costa, “manifesta-se para além dos limites daquilo que as instituições religiosas exigem ou desejariam, porque faz parte da experiência de vida das pessoas”. Por isso, a visita poderá atrair pessoas que mantêm um vínculo pessoal com Deus, mesmo afastadas das instituições. Esses grupos podem reconhecer no pontífice uma referência espiritual sem necessariamente declarar pertencimento eclesial.

As expectativas também ultrapassam a liderança religiosa de Leão XIV. Segundo o professor, os apelos papais pela paz repercutem no Uruguai, em um contexto mundial marcado por guerras e conflitos. Da Costa destaca ainda a atenção do papa aos pobres, à justiça e ao acolhimento. Seu compromisso com a paz pode alcançar diferentes grupos religiosos, e o sociólogo percebe receptividade em diversos setores sociais. “Não é uma questão que diz respeito apenas aos católicos”, afirmou.

Ao mesmo tempo, a Igreja Católica uruguaia enfrenta dificuldades para transmitir a fé. O contato com os jovens apresenta obstáculos, especialmente nos bairros populares, e algumas comunidades paroquiais registram participação juvenil bastante reduzida. Da Costa defende compreender os contextos culturais das novas gerações, cujas buscas por sentido e transcendência diferem das experiências das gerações anteriores. O desafio pastoral, em sua avaliação, ultrapassa melhorar a comunicação da doutrina.

A aproximação com fiéis afastados também exige não pressupor vínculos eclesiais anteriores. O professor considera “complexa” a situação dessas relações, embora veja na visita uma possibilidade de fortalecer os laços entre a Igreja e essas pessoas. A discussão envolve tanto a compreensão das experiências individuais de fé quanto a capacidade das comunidades de dialogar com quem está distante de suas atividades e estruturas.

No campo social, comunidades católicas mantêm obras e colaboram com instituições públicas, sobretudo no interior uruguaio. O reconhecimento público e formal dessa contribuição ainda provoca controvérsias. Da Costa identifica, contudo, uma possível mudança na compreensão da laicidade: preservar a separação entre Igreja e Estado e reconhecer contribuições religiosas sem conceder privilégios institucionais. A perspectiva defendida rejeita o proselitismo e a imposição de crenças.

O sociólogo aponta avanços na prevenção das dependências e sinais de cooperação no acompanhamento de pessoas vulneráveis, cuja atenção recebe destaque no programa da viagem. Essas experiências ainda são alvo de críticas, mas as cooperações atuais seriam menos imagináveis algumas décadas atrás. Para ele, esse cenário abre espaço para discutir a participação religiosa na sociedade e o reconhecimento de sua contribuição em iniciativas de atendimento social.

“Se a visita do Papa Leão contribuísse para uma melhor integração da dimensão religiosa na sociedade e para um maior respeito cultural em relação a ela, seria um resultado extraordinário”, afirmou Da Costa. A publicação do Vatican News também convida os leitores a assinar sua newsletter e acompanhar seu canal no WhatsApp.

Fonte: Vatican News. Leia o original.